Na aula do dia 13/05, fizemos a leitura do texto abaixo. O professor solicitou um comentário do texto para próxima aula.
Abraços!!!
PERCURSO METODOLÓGICO
“Os pesquisadores são Seres Humanos que estudam problemas humanos de maneira humana”
Rodwell
Abordagem Epistemológica
Este item apresenta as discussões acerca das inspirações teórico-epistemológicas que permearão o percurso metodológico deste trabalho na produção do conhecimento científico. Desse modo, apresentaremos os caminhos escolhidos para a construção do saber, do conhecimento e da ciência.
A pesquisa, de modo geral, caracteriza-se por uma atividade intrínseca à sede de conhecimento do Ser Humano. Campos (2001) afirma que os objetivos de uma pesquisa são sempre o de ultrapassar a limitação ou dificuldade teórica exposta no problema, sendo uma atividade fundamental na construção do conhecimento científico, pois parte-se do pressuposto de que uma teoria não é o conhecimento, ela permite o conhecimento; uma teoria não é a chegada; é a possibilidade de partida (MORIN, 2001).
Habermas (1982), sinaliza que todo pesquisador é orientado por interesses relacionados às visões de mundo e às pretensões que tem sobre o objeto de estudo. A escolha metodológica de uma pesquisa é antes de tudo, um ato político.
Nesse sentido, uma das principais tarefas do pesquisador social, ao falar das coisas, do mundo, é clarificar sobre a partir de que mundo ele próprio está falando, a partir de qual posição ele fala, explicando a teoria que embasa seus instrumentos, desnudando-se e mostrando suas inspirações metodológicas.
Destaca-se, portanto, neste projeto, a opção política-epistemológica do pesquisador-ator-autor1, baseada na concepção de Ciência proposta pela Epistemologia da Complexidade; uma Ciência que não se define por ser apenas objetiva, disciplinar, fragmentária e neutra, e sim, por ser naturalmente complexa (MORIN, 2001).
Tal escolha metodológica fundamenta-se na crença de que a construção do saber deve ocorrer a partir de um paradigma que valorize a riqueza das práticas sociais humanas, que valorize a qualidade própria da condição humana. Deve-se também, à intenção em perceber e conceber o contexto, o global, o multidimensional e o complexo para possibilitar o reconhecimento e o conhecimento mais profundo dos problemas do mundo.
Morin (2001) sinaliza que as teorias científicas surgem dos espíritos humanos imersos numa cultura, e por isso o fundamento e a noção de rigor científico de uma pesquisa das ciências críticas não pode ser o mesmo de uma pesquisa das ciências “duras”, pois a realidade social, contexto essencial das investigações das ciências críticas não se define em fatos “brutos”, mas em realidades constituídas por pessoas, significadas pela linguagem e impregnadas pelas especificidades qualitativas da vida humana. Falar de ciência social de rigor é, falar sobre a sua íntima relação com os significados de mundo existentes dentro da cultura.
Desse modo, o caminho metodológico edificante deste trabalho é a Etnopesquisa Crítica, situada na abordagem de pesquisa qualitativa a partir de inspirações filosóficas da fenomenologia.
A pesquisa qualitativa leva em conta a qualidade da condição humana, é mister reconhecermos que a antinomia “quali x quanti” é equivocada, pois os aspectos quantitativos também são de suma importância numa análise qualitativa, o que ocorre é que a pesquisa de inspiração quantitativa simplifica o mundo em números, rentes à uma lógica quantitativa da economia, já a de inspiração qualitativa se compromete com as questões da qualidade humana, com o que Hanna Arendt (2001) denomina de “condição humana”.
O referencial epistemológico da fenomenologia aponta para a necessidade do sujeito no ato de conhecer, voltar-se para as coisas em si mesmas, para a realidade que se mostra: o fenômeno. Por mais que o pesquisador esteja envolvido com os teóricos da pesquisa, ele deve abrir-se para o diálogo com a realidade concreta, afinal, se as referencias teóricas fossem suficientes à pesquisa empírica não precisava ser feita (MOREIRA, 2002).
Assim, Husserl fez da fenomenologia um método para a busca da verdade, que concebe que não há divisão entre o observador e o objeto observado e dessa forma, compreende que o sentido não está no observador, nem no mundo externo a ele, mas sim, na relação observador/mundo, ou seja, o sentido das coisas não está nem no observador, nem nas coisas em si, mas no que sobressai em cada relação observador/observado (MERLEAU-PONTY, 1996).
A fenomenologia é uma ciência cujo propósito é descrever fenômenos particulares, como também a experiência vivida, a experiência cotidiana. Parafraseando Merleau-Ponty (1996: p. 58): “É também um relato do espaço, do tempo, do mundo vividos”. Desse modo, o pesquisador de inspiração fenomenológica procura ir às coisas, ao contexto, ao fenômeno. E ao mergulhar nas coisas mesmas, ele precisa realizar um esforço no sentido de compreender o fenômeno de forma mais autêntica possível.
Segundo Macedo (2000), tal complexidade presente na pesquisa das Ciências Sociais deve ser apreendida por um olhar hermenêutico2, o pesquisador deve se colocar no lugar de ator para conseguir perceber os âmbitos qualitativos da vida. Sendo uma epistemologia qualitativa, a Etnopesquisa concebe o pesquisador, assim como seu repertório de experiências e conhecimentos como os principais instrumentos de uma Etnopesquisa, esta que, está direcionada a investigar os processos que constituem o homem em sociedade, primando em considerar aspectos subjetivos também presentes no ato da pesquisa.
Nesse sentido, utilizaremos como método investigativo a etnografia, que significa descrição social podendo ser compreendida como o conjunto de técnicas que visa revelar valores, hábitos, crenças, práticas e comportamentos de um grupo social. Este método se caracteriza fundamentalmente pelo contato direto do pesquisador com a situação pesquisada, valorizando a implicação do pesquisador com o objeto pesquisado. Em sua dimensão crítica e multirreferencial, a etnografia permite uma leitura articulada dos aspectos políticos, históricos e sociais na compreensão da complexidade do fenômeno investigado (ANDRÉ, 1995).
Este é um método fundante em termos de pesquisa qualitativa e ele foi escolhido para trilhar o caminho das investigações propostas neste trabalho por possibilitar uma leitura político-cultural, epistemológica e técnica das várias dimensões do existir do ente humano. Esses referenciais me oportunizarão, enquanto pesquisadora, uma percepção contextualizada, implicada e complexa das narrativas dos atores sociais a serem investigados. Considero importante ressaltar que essa perspectiva teórico-metodológica acerca dos fenômenos educacionais se baseia numa opção político-pedagógica que busca alterar a lógica das narrativas absolutistas e excludentes da Ciência, principalmente no campo da educação.
Definição do Universo e a Amostragem
Os alunos das séries iniciais do Ensino Fundamental, entre 7 a 10 anos são o universo da pesquisa. Serão estudados os alunos de duas escolas particulares da cidade de Salvador/BA.
A amostra será do tipo não-probabilística e para a composição dos elementos da mesma, utilizar-se-á amostra intencional, onde serão escolhidos uma quantidade de crianças de cada idade estabelecida. A quantidade será definida a partir de discussão com o Orientador.
Tanto meninos e meninas serão entrevistados, o que não compromete a pesquisa, já que estudos comprovaram que não há diferenças entre gêneros quanto ao estágio de desenvolvimento moral. (SPRINTHALL, 1993)
Técnicas de coleta de “dados”
Há duas categorias de técnicas de pesquisa a serem utilizadas para a coleta de “dados”, a saber: a documentação indireta e a documentação direta.
No primeiro caso, recolher-se-á informações mais aprofundadas levantando dados sobre o objeto de estudo. Assim, será feita uma pesquisa bibliográfica, na qual buscar-se-á estudos sobre o delimitado tema da pesquisa, com o intuito de fundamentação e sustentação teórica.
A segunda categoria será contemplada a partir de uma pesquisa de campo, na qual serão levantados “dados” das crianças. Para tanto, adotamos o estudo sobre casos como estratégia de investigação, pois de acordo com Macedo (2000), este tipo de investigação científica tem como finalidade o estudo aprofundado de cada realidade social, enfatizando a pertinência do detalhe que o edifica e a singularidade que o marca. O estudo de caso tem como finalidade central compreender uma instância singular e especial de uma realidade.
A investigação proposta neste estudo compreende a investigação de mais de uma realidade, pois o estudo será realizado em duas escolas da cidade de Salvador-BA, desse modo será feito o estudo sobre casos. A proposta deste estudo sobre casos não se restringe a padrões de comparação, a uma mera comparação de “dados”, e sim em relações contrastantes das realidades investigadas, sem perder as singularidades das mesmas.
Desta forma, objetiva-se propiciar uma visão geral e mais aproximativa do juízo moral das crianças de 7 a 10 anos e suas implicações educacionais.
Instrumentos
Becker (1997, p. 118) afirma que o pesquisador que realiza um estudo de caso “faz uso do método de observação participante em uma de suas muitas variações, muitas vezes em ligação com outros métodos mais estruturados, tais como entrevista”. Para tanto, na busca de acesso ao meio social escolar, ao cotidiano pedagógico e aos atores utilizaremos como instrumentos de pesquisa, a observação participante, entrevista semi estruturada, a análise de documentos e um recurso técnico projetivo.
A observação participativa é histórica, contextualizada filosoficamente, metodologicamente e heuristicamente. A utilização desse dispositivo é fundamental nas pesquisas Etnos, cujos pesquisadores e pesquisados formam um corpo que produz o conhecimento através da interação. Diante dessa perspectiva poderíamos explicitar de forma mais contundente a sua relevância através do seguinte questionamento; Qual o melhor observatório do mundo social: a perspectiva próxima e de "dentro" ou a perspectiva panorâmica, do alto e de "fora da cena”?
A entrevista de estrutura aberta e flexível é um poderoso recurso para captar as representações e para abrir espaço ao imprevisível. Ela será um dispositivo de pesquisa semi-estruturado, como um roteiro flexível para que o fenômeno apareça de forma mais autêntica possível, já que no percurso metodológico deste trabalho partimos do pressuposto de que para percorrermos os trilhos de uma Etnopesquisa, devemos deixar que a contradição do fenômeno se apresente ao pesquisador.
A análise documental será realizada com a finalidade de aprofundarmos a análise dos aspectos direta ou indiretamente vinculados à prática de educação moral. Afinal, para Blumer (1969) apud Macedo (2000) o documento escrito é um fixador de experiências, muitas práticas educacionais são planejadas e organizadas a partir de documentos. Macedo (2000: p. 171) sinaliza que “apesar das zonas de sombra ideológicas, em geral os documentos oferecem definições significativas sobre políticas educacionais”. Logo, a análise documental é um recurso indispensável à compreensão da instituição educativa.
A técnica projetiva a ser utilizada é um instrumento técnico de pesquisa, validado cientificamente. É uma adaptação do “Sociomoral Reflection Objection Measure” (S.R.O.M.)3, desenvolvida por Biaggio & Barreto (1991). A constituição desses instrumentos busca tornar mais prática as medidas de julgamento moral da equipe de Kohlberg.
Esta adaptação do S.R.O.M. é uma versão audiovisual com slides ilustrativos para uso com populações mais jovens e menos escolarizadas constituído por dilemas morais. Cada possibilidade de resposta está relacionada a estágios de desenvolvimento moral de Kohlberg.
O instrumento é de fácil aplicação individual e coletiva, que proporciona de forma rápida e objetiva as apurações das respostas e de suas pontuações.
As vantagens e alcances atribuídos ao mesmo justificam, a princípio, sua escolha e utilização, já que segundo Biaggio (1997), apresenta significativas correlações com as entrevistas de juízo moral de Kohlberg.
Este instrumento será aplicado com os alunos de duas escolas particulares da cidade de Salvador/BA.
A apuração será feita pelo pesquisador atribuindo às respostas a pontuação correspondente, respectivamente, aos cinco estágios Kohlbergianos. As respostas classificará cada sujeito em estágios modais de raciocínio moral que favorecerá a constituir a média do conjunto dos sujeitos em estudo.
Após feito a apuração será feito a análise, correlação, reflexão, discussão e conclusão dos dados obtidos, efetivando um estudo comparativo entre as duas escolas investigadas acerca do grau de juízo moral das crianças.